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FERNANDO NOBRE

21.05.16

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Fernando Nobre, médico, Presidente da AMI

 Na sua infância, quais foram os primeiros contactos que teve com a Ciência?

Os meus primeiros contactos com a Ciência aconteceram quando entrei com dez anos no primeiro ano do Liceu Salvador Correia de Sá e Benevides em Luanda com as aulas de Biologia.


A influência familiar condicionou, de alguma forma, o seu gosto pela Ciência e/ou as suas escolhas profissionais?

Não houve nenhuma influência familiar já que historicamente a minha família sempre foi mais virada para a Economia e as Letras.


Que tipo de interferência exerceu na educação científica dos seus filhos?

Penso que pouco ou nenhuma. Dos meus 4 filhos (um rapaz e três meninas) só o mais velho seguiu ciências sendo médico como eu. As três filhas são formadas em: Antropologia, Ciências Políticas/Relações Internacionais e História das Artes.


Como vê o ensino (formal e não formal) das ciências em Portugal?

Não tendo estudado, nem vivido, no nosso País (ultramar ou continente) dos 12 aos 34 anos só me posso pronunciar quanto aos estudos dos meus filhos (36, 34, 23 e 20 anos): entendo que o grau de exigência, rigor e estímulo são baixos porque se o nível teórico é satisfatório (embora não entenda que não se ensine os cálculo diferencial e integral até ao 12°ano, o que eu estudei na Bélgica!) o ensino prático e laboratorial é manifestamente insuficiente!


Em que áreas científicas prevê que Portugal possa ter um maior desenvolvimento e uma maior contribuição para a melhoria do conhecimento científico mundial?

Acho que Portugal tem todos os requisitos para atingir o máximo nível em todas as áreas científicas com particular ênfase para todas ciências ligadas ao mar. Para tal será indispensável visão, estratégia, exigência, rigor, estímulos e grandes incentivos e investimentos que estimulem a investigação científica dos nossos alunos, licenciados e doutorados. Enfim que a Ciência, em todos os seus ramos, seja vista e declarada como uma verdadeira Causa Nacional.Enfim que a Ciência, em todos os seus ramos, seja vista e declarada como uma verdadeira Causa Nacional para que possamos competir com os melhores no século XXI. A produção científica nacional em geral, exceptuando pois alguns nichos de grande nível internacional, ainda é escassa e não acede as grandes revistas científicas mundiais.
A classificação das nossas universidades tem de estar a breve trecho no top 100. Não é o caso. O mar e o fundo marinho abrem-nos perspectivas científicas e económicas excepcionais já tendo em conta a Zona Económica Exclusiva que possuímos e ainda mais com a próxima Extensão da nossa Plataforma Continental. O todo fará cerca de 4 milhões de km2!


Como acha que podem ser estimuladas, nas crianças, as qualidades inerentes a um bom cientista?

Bons e empenhados professores e bons laboratórios nas escolas, palestras nas escolas com bons cientistas investigadores, visitas assíduas a bons laboratórios e contactos com cientistas, disponibilidade de boas revistas científicas nas bibliotecas escolares, visitas ao nosso mar explicando as suas enormes potencialidades.... Enfim: despertando interesses e paixões pela Ciência!

 

Sobre o cientista:

Fernando de la Vieter Nobre Médico é  especialista em Cirurgia Geral e em Urologia.

Foi contemplado com o Primeiro Prémio da Associação Europeia de Urologia/Copenhaga 1984.

É Doutor Honoris Causa/ FMUL Novembro 2001.

Foi Assistente dos Hospitais Universitários e da Faculdade de Medicina (Anatomia e Embriologia Humanas) da Universidade Livre de Bruxelas.

É  Professor Regente convidado de "Medicina Humanitária" da FMUL.

Antigo Administrador dos Médicos Sem Fronteiras-MSF/Bélgica.

É Fundador e Presidente da Fundação de Assistência Médica Internacional/AMI.

 

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NAS NUVENS...

13.09.15

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Há perguntas clássicas que as crianças fazem e que são incontornáveis: Onde nascem as nuvens? De que são feitas? Por que mudam de forma?

É fácil explicar que se formam porque o sol aquece a água do mar e dos rios, fazendo-a evaporar. Por mais que seja tentador dizer que são feitas de algodão, não é difícil faze-los entender que as nuvens são formadas pelas gotas de água evaporadas e/ ou pedacinhos de gelo. Quanto à forma podemos entrar num mundo imáginário e ver todas as formas que as nuvens podem tomar (dragões, bruxas, animais, frutas)...

 

NUV.jpgE é tão bom (para nós e para eles) ver as formas que as nuvens podem tomar que passamos uma tarde no ZMar a observá-las de várias perspetivas (da rede de baloiço, do parque infantil, do baloiço  para os mais crescidos).

nuvens.jpg Existem, de facto, classificações para as formas que as nuvens tomam. Para começar podem ensinar aos pequenotes 3 dos principais tipos: Cumulus (do latim acumular; lembram floquinhos de algodão) Cirrus (como linhas que parecem pinceladas no céu) e Stratus (camada uniforme que se assemelha a um lençol)

 

 

 

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A Ilha do Pessegueiro é um robusto rochedo de arenito.O arenito (rocha sedimentar) de que é feita, terá sido, há cerca de quarenta mil anos, areia solta que fazia parte de um vasto campo dunar muito semelhante ao que se avista, atualmente, nesta praia.

 

IMG_20150822_154636.jpgFacilmente concluímos que o mar não podia fustigar o local onde ocorria a transformação de areias soltas em arenito consolidado. De facto, há uns milhares de anos, a Ilha do Pessegueiro era um campo de areias soltas afastado do mar (que devido a um período glacial se encontrava a um nível bastante inferior, até 10 km da costa atual). 

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 Os fenómenos geológicos que ocorrem na Terra têm tendência a repetir-se. As dunas que avistamos hoje têm forte probabilidade de se transformarem em arenito. O tempo ajudará à cimentação natural que resultará da dissolução de minúsculos fragmentos de conchas que se encontram entre os grãos de areia. Esse carbonato de cálcio dissolvido pelas águas e mais além precipitado servirá como cimento agregador dos grãos de areia, levando à transformação de um campo de areias soltas numa rocha resistente.

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Quando estamos de férias e o sol teima em esconder-se permitindo que as nuvens se atrevam a aspergir-nos com a sua chuva, temos que procurar alternativas à praia.

No sudoeste alentejano não é difícil encontrar...Fomos até ao Cabo Sardão.

Neste ponto da costa as arribas elevam-se dezenas de metros confrontando-nos com a nossa pequenez.

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As rochas que aqui avistamos formaram-se há mais de 300 milhões de anos, no fundo de um mar que recebia vários sedimentos (principalmente argilas e areias)

Esses sedimentos transformaram-se nas rochas (grauvaques e xistos) que hoje pisamos quando visitamos o Cabo Sardão.

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Muita coisa mudou na história destas rochas...Uma delas foi o facto de os sedimentos que deram origem às rochas terem sido depositados em camadas horizontais e hoje avistarmos essas camadas numa posição quase vertical (como a mão da pequenota). Este é um dos factos mais interessantes que aqui podemos aprender: as rochas que constituem as arribas do sudoeste alentejano foram alvo das forças compressivas, associadas ao movimento das placas tectónicas.

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Estamos certos de que também o farol do Cabo Sardão tem muitas histórias para nos contar (completou este ano 100 anos) porém estava fechado. Ficamos a saber que abre todas as quartas-feiras e que o podemos visitar gratuitamente e sem marcação.

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No final de junho fomos ao Festival de Mastros de S. Teotónio e adoramos!

A vila enfeita-se de flores de papel e criatividade, envolvendo os seus habitantes numa grande receção, conjunta, aos visitantes desta localidade.

 

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Uma das nossas ruas favoritas foi aquela cujo tema era O Circo. Os pequenos, ao verem pipocas gigantes, quiseram saber como são feitas. Aproveitei e expliquei como são feitas as pipocas que comemos.

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A transformação de milho é pipoca é uma reação química. Ao aquecer  os grãos de milho, a água que existe no seu interior começa a evaporar. O aquecimento também produz alterações na estrutura da casca do grão de milho, o pericarpo, fazendo com que o vapor de água não consiga atravessá-lo. Como consequência, o vapor de água, superaquecido, fica retido, sob pressão, no interior do grão de milho. Resultado? O vapor de água acaba por transformar o amido presente na camada interna do grão num gel.

Quando a pressão aumenta acima de um determinado limite, a pipoca estoura, por causa da rutura da casca do milho. Neste processo, o vapor de água superaquecido e o amido em forma de gel expandem-se formando um sólido branco, macio, de consistência esponjosa, que comemos: a pipoca!

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Outra das ruas que nos fascinou foi A Floresta Mágica. Adoramos cogumelos e, aqui, encontrámos uma réplica dos cogumelos mais bonitos que existem, os Amanitas muscaria, conhecido por agário das moscas. Apesar da sua beleza este cogumelo tem um elevado grau de toxicidade devido, principalmente, a um dos seus componentes, o muscimol.

Aparecem, com frequência, na base de pinheiros e eucaliptos pois estabelecem, com estas árvores, uma relação de simbiose (relação em que ambas as espécies envolvidas beneficiam). Formam, com as raízes das árvores, umas estruturas que se chamam micorrizas, que facilita a troca de nutrientes:: a planta superior fornece ao fungo principalmente hidratos de carbono (em geral, sob a forma de sacarose), enquanto o fungo fornece à planta principalmente água e compostos nitrogenados ou fosfatados, além de outros nutrientes essenciais como cálcio e potássio.

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 Foi difícil eleger a nossa rua preferida mas, a pequenota, como vai este ano para o 1º Ciclo adorou a rua A Escola Primária. Gostou especialmente de um lápis gigante que queria trazer para casa... Distrai-a dizendo-lhe que o lápis escreve pois é feito de grafite.A grafite é um mineral que, tal como o carvão e o diamante, é constituído apenas por átomos de carbono (C). Todos estes minerais têm origem semelhante: formaram-se a partir de restos de vegetais que, depois de soterrados, ficaram sujeitos a alta pressão e  temperatura durante milhões de anos.

Embora formados pela mesma substância química, estas três espécies minerais assumem, ao cristalizar em condições físico-químicas específicas, formas cristalinas muito diversas, com graus de simetria diferentes e características distintas.

Apresentação s teot.jpgContinuamos pelas ruas a apreciar os pormenores, feitos com muito empenho pela população de S. Teotónio e carregados de boas vindas .

IMG_20150630_194255.jpg É uma festa imperdível no verão do sudoeste alentejano... No mês em que se comemora os Santos Populares "S. Teotónio nã drome" (é este o mote da vila). A festa é bienal portanto, se a quiserem visitar, terão que esperar até 2017...

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DAVID SOBRAL

29.06.15

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 David Sobral, astrofísico

 

Na sua infância, quais foram os primeiros contactos que teve com a Ciência?

Imagino que na prática o primeiro contacto com a Ciência foi feito ainda antes de nascer. A minha mãe é Bióloga, e autora de manuais de Biologia. Um desses manuais foi feito ainda antes de nascer, e muitos mais ao longo dos anos. O facto de ser exposto à Ciência foi obviamente muito importante.

 Para além disso, creio que tive sempre um contacto mais ou menos directo com a Ciência: não só a um nível material, como por exemplo interagir directamente com computadores ainda antes de saber ler ou escrever (e tentar fazer alguns programas simples, ao editar programas já feitos - uma espécie de reverse engineering e que é exactamente o que é preciso para se fazer ciência), mas também com a maneira de pensar crítica e não formatada. Devo isso sobretudo ao papel do meu pai, que não sendo cientista ou não fazendo ciência pensava mais como cientista e engenheiro do que muitos que se formaram nessas áreas.

 

A influência familiar condicionou, de alguma forma, o seu gosto pela Ciência e/ou as suas escolhas profissionais?


Creio que é impossível não se ser condicionado pela família. Mas, ao mesmo tempo, foi uma escolha absolutamente genuína e que acabou por ser natural. Não creio que tenha sido simples nem óbvia durante muito tempo, sobretudo porque sempre gostei de todas as áreas. Sempre adorei escrever, mas também bastante de desporto, e ao mesmo tempo de Ciência. E, claro (e infelizmente!), senti imensa pressão para seguir Medicina, simplesmente por ter boas notas. Acho que isso é um dos grandes problemas em Portugal: o facto de se incentivar todos os alunos muito bons, ou as pessoas mais motivadas/criativas a seguirem um número altamente restrito de cursos, que muitas vezes os “matam” completamente. Isto é, incentivar as pessoas a seguirem cursos por uma lógica de “prestígio” e “emprego futuro”, faz um mal imenso ao país. Quando comecei a pensar seriamente em seguir Física, tendo uma média de 20 no Secundário, lembro-me dos comentários de alguns professores (felizmente muito poucos!) sobre essa escolha me levar, de certeza, a trabalhar como empregado de mesa, porque a Física não tinha qualquer futuro (e isso é completamente falso a nível internacional/global!). Creio que é mais do que óbvio que devíamos promover o contrário: só seremos mesmo muito bons estando motivados e tendo liberdade de escolher áreas e profissões que nos possam potenciar verdadeiramente. Só assim a sociedade pode funcionar e verdadeiramente seguir uma rota de “desenvolvimento”. Os caminhos “óbvios” e pré-formatados não levam a lugar nenhum.

Que tipo de interferência exerce/exerceu na educação científica dos seus filhos?

Não tenho filhos, mas quando os tiver farei de tudo para os ajudar a serem criativos, pensarem por si e, sobretudo, serem capazes de (querer) compreender as coisas. Muito mais importante do que “saber” ou do que o “conhecimento” é saber procurar respostas e querer compreender as coisas (e sermos capazes de questionar).

Como vê o ensino (formal e não formal) das ciências em Portugal?


Na minha experiência do ensino Secundário, o ensino das ciências foi bastante bom. Sei que se degradou bastante, com o fim de disciplinas laboratoriais, mas, ainda assim, o ensino na escola pública continua a ser absolutamente excelente, sobretudo para o baixíssimo custo para a sociedade. É óbvio que muito falta fazer, sobretudo para garantir que não matamos a curiosidade, diversidade e criatividade das novas gerações, e que os ensinamos a pensar. No entanto, creio que isso demorará imenso tempo: Portugal viveu demasiados anos sob uma lógica de puro autoritarismo, e viveu durante ainda mais tempo sob uma lógica dogmática. O país está, por isso, habituado a pensar sempre da mesma maneira, a não correr riscos, e a promover uma lógica de que só se pode fazer algo de uma maneira muito específica (mesmo quando todos se apercebem do quão ineficazes esses procedimentos são!). A incapacidade de nos apercebermos dos problemas à nossa volta, ou pelo menos a inércia que demonstramos face a eles, é absolutamente incompreensível.
Creio que o ensino superior está muitíssimo pior, e tem piorado ainda mais. Há excepções boas, claro (sobretudo das Universidades mais recentes, que tiveram decisões estratégicas muito boas), mas a realidade é que as Universidades portuguesas estão dezenas de anos atrás do resto do Mundo. A investigação e inovação é quase residual (a que existe não ocorre na Universidade em si, mas em centros de investigação, que precisam de estar “desligados” da Universidade para não terem os seus recursos literalmente “sugados”), os alunos são completamente destruídos, e a lógica é a de um ensino passivo, literalmente do século passado. Simplesmente não se incentiva a excelência nem a qualidade, e ninguém se preocupa com, por exemplo, termos uma diversidade quase zero no nosso ensino superior, não só nos professores, mas sobretudo nos alunos. Quase não há mestrados em ciências dados completamente em inglês por exemplo.

 Mais do que tudo isso, é mais do que claro que não há nenhuma estratégia. Em Portugal, o que conta é parecer e poucos de preocupam em verdadeiramente ser e fazer. E sobretudo falta olharmos para os problemas e sermos sinceros: Portugal tem um potencial imenso, gigante mesmo, mas a realidade é que somos ainda mesmo muito fracos. Só admitindo isso é que podemos concretizar o nosso potencial. Temos que fazer muito, muito mais!

 

Em que áreas científicas prevê que Portugal possa ter um maior desenvolvimento e uma maior contribuição para a melhoria do conhecimento científico mundial?


Há uma coisa que é bastante óbvia: Portugal, enquanto país pequeno, e relativamente “isolado”, e sobretudo enquanto país sem grande tradição em Ciência e em conceber novas ideias e projectos, não pode ter um grande desenvolvimento em demasiadas áreas. Há a tendência de nos querermos juntar a tudo e mais alguma coisa e em fazer e trabalhar em todas as áreas possíveis e imaginárias. Isso é a receita para o desastre. Claro que não se pode limitar a liberdade de se fazer Ciência, e é também preciso perceber que as coisas mudam muito rapidamente, e portanto mais do que identificar áreas muito rígidas, é preciso é haver liberdade para mudar ligeiramente a estratégia e as apostas, se necessário. Finalmente, creio que as áreas em que Portugal pode ter uma maior contribuição não dependem nem de Portugal, nem de uma possível “estratégia” concebida por pessoas desligadas da Ciência. As áreas de maior impacto serão sempre aquelas que interessam às melhores pessoas, às mais trabalhadoras e criativas, e às capazes de desafiar os limites actuais. Importante mesmo é apostarmos nos melhores, independentemente da área.

Como acha que podem ser estimuladas, nas crianças, as qualidades inerentes a um bom cientista?

 Existem imensas formas. Creio que uma das maneiras passa por não lhes ensinar receitas ou instruções, mas sim fazê-los pensar e compreender. Brincadeiras que mudem ligeiramente as regras e que promovam a capacidade de criar e de enfrentar problemas ligeiramente diferentes são também muito importantes. Depois, claro, creio que o próprio desporto, individual e colectivo, é também muito importante.

 

Para saber mais sobre o cientista veja aqui

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 Rumamos ao Alentejo interior e, ao entardecer, fizemos um piquenique na barragem de Odivelas. O final de tarde estava irrepreensível...Ótima temperatura, silêncio total, cheiro a flores e a ervas aromáticas. 

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Depois de muita brincadeira, no silêncio do crepúsculo, ouvimos um metálico "kreek"!... Era uma garça vermelha (Ardea purpurea).De tamanho ligeiramente menor que uma garça-real, a garça-vermelha identifica-se com alguma facilidade pela plumagem de tons gerais cinzento variando de mais escuros até rosados e pela característica mancha de tons púrpura que possui debaixo da asa e que se vê bem em voo. É difícil avistar estas aves no nosso país pois, actualmente, a sua população encontra-se a diminuir e por isso tem estatuto de conservação "em perigo". Foi um momento raro...

garça.jpgGarça vermelha (Ardea purpurea)

 

Já de volta à estrada fomos surpreendidos, por uma plantação de papoila dormideiras, (Papaver somniferum) a ocupar vários hectares dos campos do Alentejo. Soubemos, mais tarde,  que são usadas para fins devidamente autorizados e legais: extração de alcalóides opiáceos utilizados para o controlo da dor, através da produção de morfina. De surpresa em surpresa...

Papaver somniferum, papoila dormideira

Perto de Viana do Alentejo começamos a avistar indicações a dizer Pedreira dos sons. Seguimos as setas e fomos até à pedreira de mármores desta vila. E foi esta a maior das surpresas...Estava a decorrer um concerto nesta pedreira desativada que é,agora, uma sala de concertos ao ar livre, num cenário de rara beleza. A iniciativa Pedreira dos sons é  promovida pelo Município de Viana do Alentejo e pela Escola de Artes da Universidade de Évora, em colaboração com o maestro Christopher Bochmann. Durante três dias por ali passa a música clássica e o teatro (até para crianças).É imperdível...

 

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Os mármores desta pedreira são conhecidos como Mármores Verdes de Viana.Os mármores são rochas metamórficas, ou seja, formam-se a partir de outras pré-existentes devido a transformações que se dão por aumento de pressão ou de temperatura. Estes mármores tiveram origem em calcários que se formaram em ambientes marinhos calmos (sim, Viana do Alentejo também já foi um fundo de mar!...). Nestes fundos marinhos ocorria muito vulcanismo expondo os calcários a temperaturas muito elevadas. Adicionalmente, devido a movimentos tectónicos, estes calcários foram sujeitos a pressões elevadas transformado-se em rochas metamórficas (mármores) devido às novas condições de pressão e temperatura.

 

 

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Para tornar o momento ainda mais mágico, avistámos, no céu, alguns pirilampos. Pela primeira vez os pequenotes viram o que é a bioluminescência. Este fenómeno resulta de uma transformação de energia química em energia luminosa. Trata-se da ação de uma enzima, a luciferase, sobre um substrato, a luciferina. Ambas reagem entre si,libertando luz. A função biológica da bioluminescência é variável e ainda incompletamente conhecida. Em pirilampos é importante na sinalização entre animais de sexo diferente. As fêmeas escolhem os seus parceiros sexuais através de uma sequência de luz intermitente e emite o mesmo sequencial quando detecta o macho “ideal”. 

Para ver mais sobre a Pedreira dos Sons é aqui

 

 

 

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CLARA PINTO CORREIA.jpgClara Pinto Correia, bióloga

 

Na sua infância, quais foram os primeiros contactos que teve com a Ciência?

Foi viver em Africa, sem sombra de dúvida. Todo aquele mundo fabuloso à minha volta. A maneira como as osgas enormes se colavam às paredes e engoliam as moscas. As nossas visitas às grandes reservas, como a Quissama e a Cela – leões, elefantes, gnus, pacacas, impalas… Comecei a sonhar ser Park Ranger aos seis anos. Depois, no National Geographic que os meus pais assinavam, comecei a ver as fotografias da Jane Goodall com os chimpanzés. Era mesmo a vida que eu queria ter. Quando fui para Biologia ainda sonhava com isto.

 

 2- A influência familiar condicionou, de alguma forma, o seu gosto pela Ciência e/ou as suas escolhas profissionais?

Bem, se não fosse o National Geographic deles eu nunca teria descoberto a Jane Goodall aos seis anos. Foi a minha Mãe que me explicou que as pessoas que faziam aquelas coisas eram os biólogos. E sempre apoiou a minha decisão de ir para Biologia. O meu Pai foi mais ter a certeza de que eu não deixava o curso a meio, incentivar-me a fazer o doutoramento mesmo que isso implicasse ter que sair de Portugal… e mais tarde, ja a título póstumo, dar-me forca e coragem para enfrentar as provas de agregação.

 

3- Que tipo de interferência exerce/exerceu na educação científica dos seus filhos?

Bem, há poucos parques naturais onde não os tenha levado, poucos anos em que não os tenha mandado para os grupos de trabalho no Jardim Zoológico, poucos animais descobertos nos nossos passeios em que eu não tenha agarrado com as mãos para eles perderem o medo e verem a criatura de perto… para não falar de toda a bicharada que tivemos em casa, incluindo cobras e iguanas (claro que só eu é que não tinha medo de limpar os terrários, mas enfim). Por acaso chegaram a ser bons naturalistas. Uma vez apanharam uma daquelas cobrinhas com pernas, que são muito dificeis de encontrar.

 

 4- Como vê o ensino (formal e não formal) das ciências em Portugal?

É mau. E a culpa não é dos professores.

 

 5- Em que áreas científicas prevê que Portugal possa ter um maior desenvolvimento e uma maior contribuição para a melhoria do conhecimento científico mundial?

Infelizmente, mais na área das biotecnologias ou outras biologias aplicadas, e menos na ciência básica, que é o sector que realmente nos traz o crescimento de conhecimentos que empurra o mundo para a frente.

 

6- Como acha que podem ser estimuladas, nas crianças, as qualidades inerentes a um bom cientista?

 É preciso enche-las de curiosidade, expo-las a vários tipos de ambientes, contar-lhes histórias verdadeiras com muito entusiasmo, e surpreende-las com perguntas daquelas que fazem mesmo pensar. Uma vez estava a fazer os trabalhos de casa com o meu filho de nove anos e veio a propósito a questão da bolinha que explodiu e saiu o mundo lá de dentro. Olha lá, filho, vê se consegues responder: Deus estava do lado de fora e fez explodir a bolinha, ou estava do lado de dentro e saiu juntamente com o resto do mundo? Ai, Mãe! Não me faças perguntas dessas que me metes medo!

 

Para saber mais sobre a cientista:

Escritora e investigadora científica portuguesa, natural de Lisboa. Licenciou-se em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e obteve o doutoramento em Biologia Celular no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, tendo posteriormente feito um pós-doutoramento em clonagem de mamíferos na Universidade de Massachusetts. Foi assistente estagiária de Biologia Celular e de Histologia e Embriologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

 

Trabalhou como jornalista e também como investigadora em Biologia Celular na Fundação Gulbenkian. Prosseguiu a carreira académica nos Estados Unidos (em Buffalo e Amherst), onde executou o projecto do seu doutoramento em Biologia Celular (1992) pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, e onde colaborou com o paleontólogo Stephen Jay Gould, da Universidade de Harvard, especializando-se em História das Ciências entre 1994 e 1996, e celebrando um contrato para a redacção de um livro sobre História das Teorias da Reprodução.

 

Foi docente de História da Ciência e directora do curso de pós-graduação em Biologia do Desenvolvimento na Universidade Lusófona e coordenadora de pós-graduações e mestrados da mesma universidade. É ainda professora convidada do Instituto Superior de Agronomia e, desde 1996, professora auxiliar no Department of Veterinary and Animal Sciences da Universidade de Massachusetts (EUA).

 

Colaborou com crónicas em publicações periódicas e em programas de divulgação científica na rádio e na televisão e teve colaboração científica dispersa por várias publicações científicas nacionais e estrangeiras, dedicando-se igualmente à realização de conferências em congressos e universidades.

 

Entre as suas obras de divulgação científica, contam-se Os Bebés-Proveta (1986), Histórias Naturais (1988), Portugal Animal (1991), Clonai e Multiplicai-vos (1997), The Ovary of Eve/O Ovário de Eva (1997), Clones Humanos - A Nossa Autobiografia Colectiva (1999), O Mistério dos Mistérios(1999), Dodologia - Um Voo Planado Sobre a Modernidade(2001), Deus ao Microscópio (2002), Portugal Animal (2002) e Os Monstros de Deus - A Humanidade e as Suas Lendas: Do Espermatozóide ao Verme (2003). Tem também uma vasta obra de ficção e ensaio, iniciada com Agrião (1984), e que prosseguiu com Um Esquema (1985), E se Tivesse a Bondade de Me Dizer Porquê? (1986), Adeus, Princesa(1987), Um Sinal dos Tempos (1988), Ponto Pé de Flor(1990), Domingo de Ramos (1994), A Música das Esferas(1995), Mais Marés que Marinheiros (1996), A Pega Azul(1996), Mais Que Perfeito (1997), Os Mensageiros Secundários (1999), Morfina (2000), Os Mensageiros Secundários (2000), As Festas Secretas Pela Mão de Maia(2001), A Arma dos Juízes (2002), Assim na Terra Como no Céu (2003), Trinta Anos de Democracia e Depois, Pronto(2004) e No Meio do Nosso Caminho (2005).

 

Clara Pinto Correia é também autora de obras de literatura infanto-juvenil, entre as quais O Sapo Francisquinho (1986),Vitória, Vitória (1991), Quem Tem Medo Compra um Cão(1991), A Canção dos Dinossauros (1992), A Minha Alma Está Parva (1992), A Mulher Gorda (1992) e A Ilha dos Pássaros Doidos (1994). Entre as suas obras de poesia, contam-se Canções das Crianças Mortas (1989) e No Pó da Bagagem (1993). É também autora dos livros de crónicasCampos de Morangos Para Sempre (1987), The Big Easy(1995) e O Melhor dos Meus Erros (2003).

 

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No passado fim-de-semana visitamos o Festival Islâmico de Mértola.Durante quatro dias a vila volta a transformar-se em Martulah, nome do município nos séculos XI e XII, quando era capital de um reino islâmico e importante porto comercial nas rotas do Mediterrâneo.IMG_20150524_140753.jpg

Entramos no souk (mercado tradicional) e fomos imediatamente envolvidos pela mistura do chá de menta, do incenso e das especiarias com os acordes dos alaúdes e os batuques das darbukas.

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Ficamos rodeados pela arte islâmica. O Islamismo não permite o uso de figuras humanas em manifestações artísticas, facto que fez com que os árabes desenvolvessem a arte abstrata das figuras simétricas. Eles desenvolveram toda a técnica nessa área sem saber que usavam conceitos matemáticos avançados em relação à pavimentação do plano.

A propriedade essencial destes ornamentos é a existência de uma translação “minimal”, numa única direção, que desloca tal figura “indefinidamente” ao longo de uma faixa. Além destas translações outras simetrias aparecem nas repetições do motivo.IMG_20150524_152148.jpgEm passeio por esta maravilhosa vila encontrámos, no castelo, uma mostra de jogos de tabuleiro de origem árabe. Os pequenotes quiseram logo experimentar o jogo do galo (que já fazia parte das atividades lúdicas das pessoas de origem árabe que habitaram o nosso país entre os séc VIII e XII). Trata-se de réplicas de jogos encontrados em escavações arqueológicas. São desenhados sobre xistos, uma das rochas mais abundantes desta zona. Os xistos são rochas metamórficas que se formam em condições de altas temperaturas e grande pressão (em zonas profundas da crosta terrestre). Estes xistos fazem parte da Formação de Mértola, uma formação geológica que (pasme-se) prova que esta região já foi o fundo de um mar...

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 Não pudemos deixar de nos refrescar, bebendo uma limonada com hortelã, no meio do calor do Alentejo...

O mentol, que está presente em plantas do género Mentha, tem a capacidade de estimular os chamados “nervos do frio” (Corpúsculos de Krause). Os nervos do frio são geralmente ativados pela queda de temperatura (frio), que sentimos através da pele. Mas neste caso, nosso paladar é que se responsabiliza por tudo. Como possuímos inúmeros corpúsculos de Krause na nossa mucosa bucal, assim que o mentol entra em contacto com essas teminações nervosas  é enviada uma mensagem para o cérebro que responde com uma sensação refrescante. Esta sensação temo-la em contacto com alimentos com sabor a menta, elixires bucais ou pastas dentífrica que contêm mentol.

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O Festival Islâmico de Mértola tem uma periodicidade bienal e traz a esta pequena vila milhares de visitantes. Recomendamos (vivamente), às famílias que queiram levar as suas crianças a esta iniciativa, que visitem a zona do souk durante a manhã. Foi o que fizemos e tivemos uma visita maravilhosa...À tarde as ruas estavam cheias de gente e criam-se condições que não favorecem os passeios com crianças.

Descemos até ao Guadiana e afastamo-nos da confusão...Mértola tem muito para nos ensinar!

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  Para ver mais  https://www.youtube.com/watch?v=oKEwGbu10qk

 

 

 

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INVADIDOS!!

26.05.15

Nestes tempos amenos, entre a primavera e o verão, passear no Alentejo Litoral é magnífico...

O cheiro maravilhoso emanado pelas plantas das dunas mistura-se com o aroma do peixe grelhado criando a sensação de que vivemos no paraíso.

 

No entanto, nem tudo o que se avista é tão inocente como nos pode parecer...

 

O litoral está invadido por plantas que não são do nosso país e que competem com as nossas eliminando-as e instalando-se no seu espaço.São chamadas plantas invasoras.

IMG_20150412_181032.jpg

 Erva gorda, Arctotheca calendula

IMG_20150412_180844.jpg Erva gorda, Arctotheca calendula 

 

Muitas destas invasoras terão sido introduzidas no nosso país por motivos válidos, todavia os problemas ambientais consequentes desses atos são bastante danosos e de reversibilidade onerosa e lenta.

Os chorões e as azedas foram trazidos da África do Sul para ajudar a fixação das dunas e para fins ornamentais, respetivamente.

ff.jpg Chorão, Carpobrotus endulis

Oxalys-pes-caprae-1-834x399.jpgAzedas, Oxalis pes-caprae

 

As canas são oriundas da Ásia e chegaram ao nosso país com o objetivo de serem usadas na construção de sebes para delimitação de terrenos agrícolas. As acácias foram trazidas da Austrália e têm invadido grande parte do nosso território.

 

arundo-donax01.jpg

 Canas,Arundo donax

 

Acacia_20auriculiformis_1__zps3eef4354.jpeg

 Acácia, Acacia sp.

 

 NDecreto-Lei nº 565/99, de 21 de dezembro são listadas as espécies exóticas introduzidas em Portugal, destacando-se as que são consideradas invasoras. Este diploma proíbe a introdução de novas espécies e ainda a detenção, a criação, o cultivo e a comercialização das que são consideradas invasoras e de risco ecológico.

 

Para conhecer mais plantas invasoras do nosso país veja aqui.

 

 

 

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