Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]





DAVID SOBRAL

29.06.15

david.jpg

 David Sobral, astrofísico

 

Na sua infância, quais foram os primeiros contactos que teve com a Ciência?

Imagino que na prática o primeiro contacto com a Ciência foi feito ainda antes de nascer. A minha mãe é Bióloga, e autora de manuais de Biologia. Um desses manuais foi feito ainda antes de nascer, e muitos mais ao longo dos anos. O facto de ser exposto à Ciência foi obviamente muito importante.

 Para além disso, creio que tive sempre um contacto mais ou menos directo com a Ciência: não só a um nível material, como por exemplo interagir directamente com computadores ainda antes de saber ler ou escrever (e tentar fazer alguns programas simples, ao editar programas já feitos - uma espécie de reverse engineering e que é exactamente o que é preciso para se fazer ciência), mas também com a maneira de pensar crítica e não formatada. Devo isso sobretudo ao papel do meu pai, que não sendo cientista ou não fazendo ciência pensava mais como cientista e engenheiro do que muitos que se formaram nessas áreas.

 

A influência familiar condicionou, de alguma forma, o seu gosto pela Ciência e/ou as suas escolhas profissionais?


Creio que é impossível não se ser condicionado pela família. Mas, ao mesmo tempo, foi uma escolha absolutamente genuína e que acabou por ser natural. Não creio que tenha sido simples nem óbvia durante muito tempo, sobretudo porque sempre gostei de todas as áreas. Sempre adorei escrever, mas também bastante de desporto, e ao mesmo tempo de Ciência. E, claro (e infelizmente!), senti imensa pressão para seguir Medicina, simplesmente por ter boas notas. Acho que isso é um dos grandes problemas em Portugal: o facto de se incentivar todos os alunos muito bons, ou as pessoas mais motivadas/criativas a seguirem um número altamente restrito de cursos, que muitas vezes os “matam” completamente. Isto é, incentivar as pessoas a seguirem cursos por uma lógica de “prestígio” e “emprego futuro”, faz um mal imenso ao país. Quando comecei a pensar seriamente em seguir Física, tendo uma média de 20 no Secundário, lembro-me dos comentários de alguns professores (felizmente muito poucos!) sobre essa escolha me levar, de certeza, a trabalhar como empregado de mesa, porque a Física não tinha qualquer futuro (e isso é completamente falso a nível internacional/global!). Creio que é mais do que óbvio que devíamos promover o contrário: só seremos mesmo muito bons estando motivados e tendo liberdade de escolher áreas e profissões que nos possam potenciar verdadeiramente. Só assim a sociedade pode funcionar e verdadeiramente seguir uma rota de “desenvolvimento”. Os caminhos “óbvios” e pré-formatados não levam a lugar nenhum.

Que tipo de interferência exerce/exerceu na educação científica dos seus filhos?

Não tenho filhos, mas quando os tiver farei de tudo para os ajudar a serem criativos, pensarem por si e, sobretudo, serem capazes de (querer) compreender as coisas. Muito mais importante do que “saber” ou do que o “conhecimento” é saber procurar respostas e querer compreender as coisas (e sermos capazes de questionar).

Como vê o ensino (formal e não formal) das ciências em Portugal?


Na minha experiência do ensino Secundário, o ensino das ciências foi bastante bom. Sei que se degradou bastante, com o fim de disciplinas laboratoriais, mas, ainda assim, o ensino na escola pública continua a ser absolutamente excelente, sobretudo para o baixíssimo custo para a sociedade. É óbvio que muito falta fazer, sobretudo para garantir que não matamos a curiosidade, diversidade e criatividade das novas gerações, e que os ensinamos a pensar. No entanto, creio que isso demorará imenso tempo: Portugal viveu demasiados anos sob uma lógica de puro autoritarismo, e viveu durante ainda mais tempo sob uma lógica dogmática. O país está, por isso, habituado a pensar sempre da mesma maneira, a não correr riscos, e a promover uma lógica de que só se pode fazer algo de uma maneira muito específica (mesmo quando todos se apercebem do quão ineficazes esses procedimentos são!). A incapacidade de nos apercebermos dos problemas à nossa volta, ou pelo menos a inércia que demonstramos face a eles, é absolutamente incompreensível.
Creio que o ensino superior está muitíssimo pior, e tem piorado ainda mais. Há excepções boas, claro (sobretudo das Universidades mais recentes, que tiveram decisões estratégicas muito boas), mas a realidade é que as Universidades portuguesas estão dezenas de anos atrás do resto do Mundo. A investigação e inovação é quase residual (a que existe não ocorre na Universidade em si, mas em centros de investigação, que precisam de estar “desligados” da Universidade para não terem os seus recursos literalmente “sugados”), os alunos são completamente destruídos, e a lógica é a de um ensino passivo, literalmente do século passado. Simplesmente não se incentiva a excelência nem a qualidade, e ninguém se preocupa com, por exemplo, termos uma diversidade quase zero no nosso ensino superior, não só nos professores, mas sobretudo nos alunos. Quase não há mestrados em ciências dados completamente em inglês por exemplo.

 Mais do que tudo isso, é mais do que claro que não há nenhuma estratégia. Em Portugal, o que conta é parecer e poucos de preocupam em verdadeiramente ser e fazer. E sobretudo falta olharmos para os problemas e sermos sinceros: Portugal tem um potencial imenso, gigante mesmo, mas a realidade é que somos ainda mesmo muito fracos. Só admitindo isso é que podemos concretizar o nosso potencial. Temos que fazer muito, muito mais!

 

Em que áreas científicas prevê que Portugal possa ter um maior desenvolvimento e uma maior contribuição para a melhoria do conhecimento científico mundial?


Há uma coisa que é bastante óbvia: Portugal, enquanto país pequeno, e relativamente “isolado”, e sobretudo enquanto país sem grande tradição em Ciência e em conceber novas ideias e projectos, não pode ter um grande desenvolvimento em demasiadas áreas. Há a tendência de nos querermos juntar a tudo e mais alguma coisa e em fazer e trabalhar em todas as áreas possíveis e imaginárias. Isso é a receita para o desastre. Claro que não se pode limitar a liberdade de se fazer Ciência, e é também preciso perceber que as coisas mudam muito rapidamente, e portanto mais do que identificar áreas muito rígidas, é preciso é haver liberdade para mudar ligeiramente a estratégia e as apostas, se necessário. Finalmente, creio que as áreas em que Portugal pode ter uma maior contribuição não dependem nem de Portugal, nem de uma possível “estratégia” concebida por pessoas desligadas da Ciência. As áreas de maior impacto serão sempre aquelas que interessam às melhores pessoas, às mais trabalhadoras e criativas, e às capazes de desafiar os limites actuais. Importante mesmo é apostarmos nos melhores, independentemente da área.

Como acha que podem ser estimuladas, nas crianças, as qualidades inerentes a um bom cientista?

 Existem imensas formas. Creio que uma das maneiras passa por não lhes ensinar receitas ou instruções, mas sim fazê-los pensar e compreender. Brincadeiras que mudem ligeiramente as regras e que promovam a capacidade de criar e de enfrentar problemas ligeiramente diferentes são também muito importantes. Depois, claro, creio que o próprio desporto, individual e colectivo, é também muito importante.

 

Para saber mais sobre o cientista veja aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)








Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D